
Na última rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol 2009, 20 clubes, em 10 estádios espalhados pelo País, entraram em campo neste domingo (6) para divulgar o projeto “Começar de Novo”, uma iniciativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Com faixas apresentadas pelos jogadores com os dizeres “Trabalho para ex-detentos. Mais Segurança para Todos”, Clube dos 13, CBF e CNJ sensibilizam o público de mais de 500 mil espectadores para o problema da reinserção de presos na sociedade. O objetivo do projeto é criar oportunidades de emprego a egressos do sistema prisional como uma das formas de se reduzir a criminalidade no Brasil.
No Rio, a faixa foi aberta no gramado pouco antes de começar o jogo no Maracanã, que resultou na conquista do “Brasileirão” pelo Flamengo ao derrotar o Grêmio por 2 a 1.
O presidente do Flamengo, Márcio Braga, ficou contente ao ver o time colaborando com o projeto do CNJ. Para ele, “é o programa mais efetivo que vejo no momento para o combate à violência”. Braga lembrou que o futebol é a paixão nacional e, por isso”, “ é importante passar uma mensagem de recuperação para ex-detentos”.
O zagueiro rubro-negro Ronaldo Angelim, autor do 2º gol, que deu o título ao Flamengo, reconheceu que “essa campanha é importante por dar oportunidade de emprego a essas pessoas. Isso faz com que não voltem ao crime. Essa campanha vai ajudar a melhorar nosso país”.
Túlio, um dos jogadores da equipe do Grêmio que levou a faixa ao gramado, disse que “todo mundo erra na vida e essas pessoas já cumpriram a pena diante da sociedade. Então é justo dar oportunidades de trabalho”.
No Morumbi, a partida entre São Paulo e Sport Recife (4x0) contou com a presença do presidente do CNJ e do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes. “Nós sabemos a paixão que os brasileiros dedicam ao futebol. Daí a importância dessa iniciativa, que conta com a colaboração do Clube dos 13 e da CBF”, disse o ministro em entrevista.
Apesar de ser santista, o ministro Gilmar Mendes assistiu com entusiasmo ao jogo entre São
Paulo e Sport Recife. A torcida aplaudiu entusiasmada os jogadores dos dois times, que se mostraram engajados em contribuir para o fim do preconceito contra àqueles que já pagaram suas penas perante a Justiça.
Reincidência
Segundo o ministro, o programa “Começar de Novo”, além de contribuir para a reinserção social de presos e egressos do sistema carcerário, por meio da capacitação e da abertura de oportunidades de trabalho, evita a reincidência, “está aí a importância desse trabalho que tem um conteúdo humano com foco na segurança pública. Queremos com isso sensibilizar os órgãos públicos e as empresas privadas a dar uma chance aos egressos”, chancelou.
Para o técnico do São Paulo, Ricardo Gomes, a campanha do CNJ “recupera o cidadão ao dar oportunidade de emprego, reduzindo o risco de ele voltar à criminalidade”. Já o jogador Washington, autor de três dos quatro gols do São Paulo contra o Sport, acha que a parceria do Clube do 13 com o CNJ para divulgar o Projeto “Começar de Novo” é importante “e eu espero que os empresários deem oportunidade de trabalho para que os ex-presos possam voltar à vida social. A gente apoia e torce muito para que haja novas oportunidades e com certeza a redução da criminalidade”.
Outros jogos
São Paulo, Flamengo, Grêmio e Sport Recife não foram os únicos times a participar da divulgação do programa. Outros jogos da última rodada do Campeonato Brasileiro, neste sábado e domingo, tiveram faixas exibidas nos estádios pelas equipes de futebol. A ideia é estimular empresas, órgãos públicos e instituições a oferecer vagas de trabalho a ex-detentos, como forma de garantir a reinserção social e combater a criminalidade.
Na outra partida em terras cariocas, Botafogo e Palmeiras, que se enfrentaram no estádio do Engenhão, craques de hoje e de ontem elogiaram a iniciativa do CNJ. O ídolo Dozinete, o “Pantera”, estava no estádio para assistir à partida e, quando foi informado sobre a campanha, saudou a iniciativa. “Isso é uma coisa muito legal e mostra que ainda existe preocupação com as pessoas que pecam, com as pessoas que têm esses problemas na vida, que todos podem passar, a gente não sabe o dia de amanhã. Eu acho o projeto muito legal e desejo que essa iniciativa possa render bons frutos”, afirmou.
Os jogadores botafoguenses Renato, Wellington e Lúcio Flávio disseram que todos merecem uma segunda chance depois que cometem erros. Com bom humor, Wellington, autor do primeiro gol contra o Palmeiras, chegou a comparar o slogan da campanha do CNJ - Começar de Novo - ao momento atual do Botafogo. "Depois de se livrar do rebaixamento, a meta do time agora é disputar o próximo campeonato para ser campeão e não para atuar se segurando para não cair para a Série B". A vitória de 2 a 1 sobre o Palmeiras livrou o clube de deixar a elite do Campeonato Brasileiro.
O técnico do Botafogo, Estevam Soares, classificou a ressocialização como “um direito básico” do ex-detento, mas destacou a necessidade de melhoria do sistema carcerário brasileiro. “É preciso criar mecanismos para que esse indivíduo realmente se ressocialize ainda lá dentro. Eu acho que é um fator já primordial para quando ele sair ter essa oportunidade e ser mais aceito na sociedade. Se o detento receber um tratamento melhor dentro da cadeia, ele vai sair de lá mais calmo, com mais chance de seguir o caminho do bem”, acredita.
O presidente do Botafogo, Maurício Assunção, afirmou que o time é parceiro dessa ideia e ressaltou a importância de projetos de responsabilidade social como o “Começar de Novo”. “Eu não tenho acesso a números, mas sei que o número de reincidência é muito alto. Muitas daqueles que saem da penitenciária depois de terem cumprido a pena, retornam. Quando os clubes dão esse exemplo, quando trazem para si essa responsabilidade - como o Botafogo está fazendo não só em relação ao ´Começar de Novo´, mas também com comunidades carentes -, eu acho que isso é importante. Os clubes de futebol são entidades sem fins lucrativos e que têm essa obrigação social”, afirmou o dirigente. Segundo o conselheiro do CNJ, Nelson Braga, que assistiu ao jogo Flamengo e Grêmio, a reincidência hoje no Brasil é de 70%.
Palmeiras
Os jogadores do time paulista deixaram o Engenhão sem dar entrevistas após o jogo, mas o técnico do clube, Murici Ramalho, comentou a importância do “Começar de Novo” e a parceria com o Clube dos 13 e a CBF. Ele considera fundamental que a oportunidade de emprego seja dada ao ex-detento que apresentar bom comportamento e que faça por onde merecer. “Se ele for um detento realmente que se comporta bem, que quer voltar para a sociedade, porque ele tem que merecer também, alguém tem que estender a mão. Nesse processo, o que a gente percebe no Brasil é que a penitenciária não recupera ninguém: o cara entra e sai, entra e sai. Então com certeza o que estão fazendo é muito correto, é uma chance de alguém estender a mão para eles. Eu acho que a ajuda do futebol é muito importante porque a gente tem uma imagem muito boa, ou seja, todo mundo tá vendo”, afirmou o treinador.
No embate Santos e Cruzeiro, na Vila Belmiro, a iniciativa do CNJ foi louvada pelo treinador santista, Vanderlei Luxemburgo. Para ele, esta é uma maneira de se dar uma oportunidade a quem cometeu algum delito. “Você cometeu um delito e foi preso e, de repente, volta para a sociedade, mas não tem onde trabalhar... Ver seu filho passando fome, passando problema, você começa a pensar: não vou mais fazer bobagem porque tô (sic) empregado. Então, por esse aspecto, vale muito esse projeto”, comenta.
Para o meio-campo Paulo Henrique, do Santos, “esse projeto”é muito importante até pra dar uma segunda chance pra todo ser humano”.
Segunda chance, aliás, foi a expressão mais repetida pelos jogadores do Internacional ao comentarem o projeto. "Que todas as empresas do Brasil escutem isso e possam dar uma oportunidade de emprego para essas pessoas que um dia cometeram algo de errado, mas que merecem uma segunda chance, com certeza", disse o meio-campista Sandro, do time colorado.
Sob os olhares dos mais de 36 mil torcedores que foram ao estádio Beira-Rio neste domingo (6) acompanhar o jogo do vice-campeão Inter contra o Santo André, pela última rodada do Campeonato Brasileiro de 2009, jogadores do time da casa e do visitante entraram em campo carregando a faixa do CNJ convencidos de que se deve dar uma segunda chance às pessoas quem cumpriram pena de prisão.
Ao frisar que ninguém se entrega para a vida do crime de graça, o centroavante Alan Kardec concordou com o colega Sandro. Para ele, se alguém “cai no crime” é porque sente ausência de alguma coisa. "Acredito que se houver uma”oportunidade, uma segunda chance para as pessoas mostrarem seus valores, acredito que será muito importante para a sociedade", disse o jogador.
O outro meio-campo do Inter, Giuliano, chegou a comparar o ex-presidiário a um jogador de futebol que erra um pênalti. "Muitas vezes acontece de ter um pênalti, o jogador vai lá e erra. Mas sempre acaba tendo uma segunda oportunidade", exemplificou. "Então nós somos exemplos disso. Acho que eles são seres humanos como a gente, que erraram, que falharam, e pagaram a consequência por isso. Depois que voltam a ter uma vida normal, merecem ter uma oportunidade de trabalho, oportunidade de ser uma pessoa melhor e de conseguir reconstruir a vida e a família, assim como todos nós".
Os três fizeram questão de elogiar o programa "Começar de Novo", e revelaram acreditar que a iniciativa reduzirá a criminalidade.
O jogo acabou com o placar de 4x1 para o Internacional. O resultado garantiu o vice-campeonato para o time gaúcho, que tem lugar garantido na Copa Libertadores da América do próximo ano.
Programa
O programa "Começar de Novo" é um conjunto de ações que visam sensibilizar órgãos públicos e a sociedade civil sobre a necessidade de ressocialização dos detentos e egressos do sistema prisional. Por meio de campanhas publicitárias, o projeto também pretende reduzir o preconceito em relação aos presos. Trabalha ainda com a formação de parcerias com empresas, entidade civis e órgãos públicos que possam oferecer cursos de capacitação profissional e oportunidade de emprego.
Entre as empresas e entidades que são parcerias do projeto estão a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, o Sesi, o Senai, a Itaipu Binacional, Federação Brasileira de Bancos, Fundação Santa Cabrini, além dos tribunais de Justiça que firmam convênios para que os presos possam trabalhar nos órgãos do Judiciário.
Nova adesão
O Governo do Estado de São Paulo e a prefeitura de São Paulo, também vão aderir ao Programa “Começar de Novo”, com a assinatura de acordo com o presidente do CNJ, ministro Gilmar Mendes, nesta segunda-feira (7), em evento a ser realizado às 14h30, no Palácio dos Bandeirantes, com a presença do governador José Serra, do prefeito Gilberto Kassab e do secretário de Emprego e Relações de Trabalho, Guilherme Afif Domingos.