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Victor Eugênio, 90 anos: o homem que conheceu Jânio Quadros como poucos

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Ronaldo Nóbrega
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Secretário particular e homem de confiança do ex-presidente, Victor Cabrera Eugênio chega aos 90 anos como testemunha de uma época em que a política brasileira se fazia entre grandes disputas, amizades duradouras e compromissos pessoais.

A República brasileira tem uma curiosa inclinação para esquecer os homens que ajudaram a construir sua história. Guarda os nomes dos presidentes, registra as crises, celebra as vitórias e condena as derrotas. Mas frequentemente deixa à margem aqueles que conheceram o poder por dentro, testemunharam suas grandezas e suas misérias e permaneceram quando os aplausos já haviam terminado.

Victor Cabrera Eugênio é um desses homens que o tempo não conseguiu afastar da memória política nacional.

No próximo dia 14 de novembro, completará 90 anos. Apontado como o último ex-assessor vivo de Jânio Quadros, Victor carrega consigo uma parte singular da história republicana. Não foi apenas um auxiliar do ex-presidente. Foi seu secretário particular, interlocutor, confidente político e companheiro de uma longa jornada atravessada por vitórias, confrontos e adversidades.

E que personagem foi Jânio Quadros!

Poucos homens públicos brasileiros reuniram, numa mesma personalidade, tamanha capacidade de mobilização popular, imprevisibilidade política e talento para transformar gestos em acontecimentos nacionais.

Eleito presidente da República em 1960, Jânio chegou ao Palácio do Planalto com a promessa de moralizar a administração pública. Sua renúncia, em agosto de 1961, menos de sete meses depois da posse, mergulhou o país numa crise institucional cujas consequências ultrapassariam seu próprio governo.

Victor Eugênio acompanhou esse personagem para além das solenidades, dos discursos e das disputas eleitorais. Conheceu o homem que existia depois que as portas dos gabinetes se fechavam.

Quando Jânio permaneceu recolhido em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, Victor esteve entre seus principais interlocutores. A relação resistiu às mudanças de circunstância e à distância entre o prestígio de um antigo presidente e a realidade de quem já não exercia o poder.

A amizade entre as famílias ultrapassou os compromissos da vida pública. Jânio e sua esposa, Eloá, tornaram-se padrinhos de batismo de Victor Eugênio Filho, caçula de Victor e Floria.

Não se trata de um detalhe doméstico sem importância. Em sociedades nas quais a política frequentemente se organiza por relações pessoais, esses vínculos ajudam a compreender a confiança que sustenta determinadas alianças.

Mas seria injusto apresentar Victor Eugênio apenas como personagem secundário da biografia de Jânio Quadros.

Sua própria trajetória no Mato Grosso do Sul merece registro.

Foi vereador em Campo Grande, presidiu a Associação dos Vereadores do Estado, exerceu funções de secretário municipal e ocupou, em diferentes ocasiões, secretarias estaduais.

Conheceu a política municipal, participou da administração estadual e conviveu com as exigências da representação popular. Sua experiência não nasceu exclusivamente da observação dos grandes acontecimentos nacionais. Foi construída também no exercício cotidiano da vida pública.

Há uma diferença considerável entre conhecer os homens do poder e compreender o poder dos homens.

Victor Eugênio teve a oportunidade de observar ambos.

Conviveu com um presidente cuja personalidade continua a desafiar historiadores e analistas. Acompanhou os mecanismos da política regional e testemunhou transformações que alteraram profundamente as instituições brasileiras.

Aos 90 anos, representa uma memória que não pode ser substituída por documentos oficiais.

Os arquivos preservam decretos, discursos, correspondências e resultados eleitorais. Mas nem sempre conseguem revelar as hesitações anteriores a uma decisão, os conflitos pessoais que acompanham uma crise ou a confiança silenciosa que une dois personagens públicos.

É nesse território, entre a história documentada e a experiência vivida, que se encontra o valor de testemunhos como o de Victor Eugênio.

Naturalmente, não se deve confundir respeito pelo passado com sua idealização.

A política brasileira de outras décadas conheceu ambições desmedidas, disputas ferozes e graves rupturas institucionais. Jânio Quadros foi, ele próprio, protagonista de algumas dessas contradições.

Mas também é verdade que determinadas trajetórias individuais ajudam a preservar valores que não deveriam desaparecer com as mudanças de geração: a palavra empenhada, a lealdade pessoal, a discrição e o respeito aos compromissos assumidos.

Victor Eugênio chega aos 90 anos trazendo consigo essa experiência.

A comemoração ocorrerá no Solar dos Eugênio, em Campo Grande, onde familiares, amigos e admiradores se reunirão para celebrar uma vida dedicada, em boa parte, à política e à administração pública.

Será uma ocasião para homenagens, lembranças e reencontros. Mas também para reconhecer a importância de preservar os testemunhos de uma geração que conheceu de perto os grandes personagens da República.

O Brasil de Jânio Quadros já não existe. Mudaram as instituições, os partidos, os costumes e os instrumentos de comunicação política. O poder ganhou novas linguagens e novas formas de manifestação.

A natureza humana, entretanto, permanece surpreendentemente familiar.

Continuam existindo a ambição, a vaidade, a disputa, a amizade e a lealdade. Continuam existindo aqueles que se aproximam do poder e aqueles que permanecem ao lado dos amigos quando o poder termina.

Victor Eugênio pertence à história de uma dessas relações.

Jânio Quadros entrou para os livros como presidente, político e protagonista de uma das mais discutidas renúncias da República. Victor Eugênio conserva a memória do homem que existia por trás da figura pública.

Aos 90 anos, Victor Eugênio oferece uma lição que a política contemporânea faria bem em considerar: os cargos pertencem às instituições, o poder é passageiro, mas a memória dos homens e a natureza de seus compromissos sobrevivem ao calendário da República.

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