
Prof. Ricardo Caldas* (Economista e Cientista Político)
No Brasil, a divulgação de índices de preços se inicia com a publicação do Índice Geral de Preços (IGP) em 1947, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Em 1979, o IBGE passou a publicar o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) e, em 1980, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), atual índice oficial de inflação no Brasil.
O Brasil em 2022 entrou em deflação. Não apenas mais uma deflação. A maior deflação (registrada) da nossa história econômica. Com efeito, medido pelo IPCA, a inflação, em 2022, caiu em julho (0,68%), em agosto (0,36%), e em setembro com (0,29%). Esta é a maior deflação já registrada na série histórica do IBGE desde 1980 e, certamente, a maior da nossa história.
Isoladamente, a deflação de julho de 2022 (0,68%) já vai entrar para a história, por ser a menor da taxa da série histórica do IPCA, em 42 anos, se contados a partir da sua criação em janeiro de 1980.
O mesmo fenômeno deflacionário ocorrera em 1998 com o IPCA apresentando também três meses consecutivos de deflação, coincidentemente nos mesmos meses de julho, agosto e setembro, com uma deflação de (0,12%), (0,51%) e (0,22%), totalizando, portanto, uma deflação no trimestre de cerca de (0,85%).
No entanto, ela foi inferior à atual, que atingiu (1,33%). Ou seja, apesar de também ter havido uma deflação em 1998 por três meses consecutivos, medidos pelo IPCA, a deflação do atual 3º trimestre (julho/agosto/setembro) de 2022 é certamente a mais profunda por apresentar valores superiores ao de 1998, 1,33% contra 0,85%.
O IPCA-E [(IPCA-E (Série Especial, trimestral)], que é outra medida da inflação, mas de forma trimestral, confirmou esse mesmo fenômeno.
De fato, o IPCA-E (trimestral) de julho a setembro de 2022 foi negativo em (0,97%) e é o mais intenso da série histórica, mesmo se considerarmos a deflação do terceiro trimestre de 1998, quando houve deflação em julho, agosto e setembro, de (0,11%), (0,37%) e (0,44%), respectivamente, totalizando o IPCA-E em (0,92%).
Se considerarmos qualquer outro índice, no acumulado dos últimos três meses (3º trimestre), o resultado não seria diferente: INPC (1,23%), IGP-DI (2,15)%, IGP-M (1,86%), IGP-10 (2,19)%.
O terceiro trimestre de 2022, baseado no IPCA, portanto, passará para a história como a maior deflação trimestral, que o Brasil jamais registrou.
Qual a causa dessa deflação tão intensa no 3º trimestre de 2022?
A mudança no ICMS foi o fator principal que ocasionou as quedas ao reduzir a alíquota que pesava sobre os combustíveis (tais como gasolina, etanol e diesel), no gás de cozinha e na eletricidade que passaram a ser considerados como itens essenciais (e não supérfluos, como outrora). Além disso, a redução de preços dos combustíveis no 3º trimestre de 2022 levada a cabo pela Petrobras também contribuiu para a maior deflação em nossa história.
*Professor Ricardo Caldas - O professor doutor Ricardo Wahrendorff Caldas, possui graduação em Economia e mestrado em Ciência Política pela Universidade de Brasília. Em 1994 obteve o Ph.D. em Relações Internacionais pela University of Kent at Canterbury.