
A ofensiva do governo contra as bets pode ganhar outro capítulo depois das eleições. Dentro do próprio governo, já são calculados os efeitos econômicos de uma proibição, enquanto clubes de futebol, empresas de comunicação e outros setores atingidos ampliam a pressão contra a MP das bets.
A campanha de Lula foi alertada sobre o risco de demissões decorrentes da perda de receitas publicitárias. Ao mesmo tempo, o governo avalia o impacto sobre os clubes de futebol, que passaram a receber cifras expressivas das casas de apostas por meio de contratos de patrocínio.
A dimensão econômica ajuda a explicar o tamanho do impasse. Em 2025, somente os patrocínios das bets aos clubes da Série A somaram cerca de R$ 1,03 bilhão. Empresas do setor também estão entre os grandes anunciantes da televisão e de outras plataformas de comunicação.
O problema deixou, portanto, de ser apenas regulatório. Tornou-se econômico e político.
É nesse cenário que outra alternativa pode entrar no debate em Brasília: a criação de uma agência reguladora nacional para as plataformas de apostas.
A ideia seria substituir a lógica de simplesmente extinguir o mercado por uma estrutura permanente de Estado, com autonomia técnica, decisória, administrativa e financeira.
Hoje, a regulação está concentrada na Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda. Uma agência teria outro desenho institucional e poderia reunir atribuições especializadas de supervisão, certificação de sistemas, proteção aos apostadores, solução de conflitos, aplicação de sanções e combate ao mercado clandestino.
A discussão pode ganhar força principalmente depois das eleições, quando o tema deixar de carregar o mesmo peso da disputa eleitoral e o governo tiver de enfrentar as consequências econômicas e jurídicas de qualquer decisão definitiva.
Isso não significa que o recuo esteja decidido. Até agora, não há anúncio oficial nesse sentido. Mas as resistências já chegaram ao Planalto e obrigaram o governo a colocar na conta empregos, publicidade, contratos de patrocínio, arrecadação e o impacto sobre o futebol.
No Congresso, a discussão também pode mudar de eixo. Em vez de simplesmente escolher entre manter ou acabar com as bets, deputados e senadores poderão discutir se o problema está no mercado em si ou na capacidade do Estado de controlá-lo.
Nesse ponto, uma agência reguladora entra no jogo.
Há, porém, um componente político decisivo: a criação de uma nova agência federal no âmbito do Executivo depende de iniciativa do Presidente da República. O Congresso pode pressionar, negociar e construir uma alternativa, mas a iniciativa formal precisa partir do Planalto.
É aí que está a questão.
Passadas as eleições, Lula terá de decidir se mantém a aposta política na proibição ou se abre espaço para transformar o enfrentamento às bets em uma política permanente de regulação e controle.