
Niède Guidon, arqueóloga brasileira conhecida principalmente pelo trabalho desenvolvido no Parque Nacional Serra da Capivara, no estado do Piauí, participou na última terça-feira, dia 14 de novembro, da 33ª Reunião da Rede de Inteligência da 1ª Região (Reint1), realizada em parceria com a Escola de Magistratura Federal da 1ª Região (Esmaf). Durante o encontro, para o qual foi convidada para falar sobre o povoamento das Américas e o desenvolvimento regional na perspectiva da importância do parque, Niède Guidon foi homenageada pelas atividades de preservação do patrimônio histórico brasileiro e o empenho na transformação social da região da Serra da Capivara, sem falar no valoroso esforço científico empreendido para reconhecimento das descobertas arqueológicas no local.
Ao abrir a última reunião, o coordenador da Reint1, desembargador federal Carlos Augusto Pires Brandão, saudou Niède e recordou seu primeiro encontro com a arqueóloga, quando foi juiz federal diretor de foro na Seção Judiciária do Piauí.
Segundo contou o magistrado, à época desse primeiro encontro a Justiça Federal lidava com um delicado processo para salvaguardar o patrimônio histórico da Serra da Capivara: na região, uma indústria com necessidade de explorar o minério calcário mantinha um trabalho que podia prejudicar os locais onde estavam as reminiscências históricas das pinturas rupestres feitas há milhares de anos. Concedida a liminar pela Justiça Federal para frear o avanço da exploração no local, o coordenador da Reint1 ressaltou o papel da inteligência empreendedora de Niède, que desenvolveu outros arranjos econômicos capazes de permitir acabar com atuação daquela indústria no local e deixar para a posteridade o importante acervo do Parque Nacional da Serra da Capivara.
O vasto currículo da arqueóloga foi lido pelo coordenador executivo da ação, o juiz federal Wagner Mota Alves de Souza: graduada em história natural, especialista em arqueologia pré-histórica com ênfase em arte rupestre, doutora em pré-histórica, Niède Guidon é também diretora presidente emérita da fundação do museu do homem americano, tendo recebido inúmeros títulos e honrarias concedidas no Brasil e no exterior – em reconhecimento às suas pesquisas e também em razão da criação e preservação do parque que hoje é declarado patrimônio cultural da humanidade.
Importância das descobertas arqueológicas na Serra da Capivara: para além da preservação do patrimônio, uma transformação socioeconômica
Em breves palavras, Niède Guidon falou do início de suas pesquisas sobre o povoamento da América, especialmente na região Nordeste, sobre o qual não havia quase nenhum levantamento a respeito. Tendo ouvido falar sobre a presença de pinturas no local, ela veio da França, onde trabalhava como professora, para conhecer a região. Ao reconhecer a importância do que ali estava, dedicou-se ao trabalho. “O parque tem 463 sítios com pinturas. É uma coisa única no mundo essa quantidade e, sobretudo, pinturas diversificadas, vários estilos”, explicou. Niède mobilizou uma missão franco-brasileira na qual, com estudantes que conhecia, vinha fazer pesquisas no Brasil. Ao longo das atividades que aqui desempenhava, teve um papel fundamental na transformação social da região, onde empregava as pessoas, muitas delas mulheres que viviam em uma situação praticamente de escravidão. Depois de ter se aposentado, veio para morar no País e continuou o trabalho ajudando novos pesquisadores a darem seguimento às pesquisas e demais estudos.
“Quando eu cheguei aqui e eu comecei a fazer perguntas sobre as pinturas e visitar os sítios, as pessoas me disseram: ‘por que a senhora gosta desse desenho que aqueles bichos que moravam aqui fizeram’?”, relatou. “Para eles o homem pré-histórico era um bicho. Não tinham nenhum conhecimento da importância, e [de] que era um homo sapiens também. Mas daí eu comecei a trabalhar. Pessoas daqui me ajudaram, participaram, muitos se formaram. Hoje temos aqui uma Universidade com curso de Arqueologia. Tudo mudou e hoje está tranquilo, preservado. As pinturas são fantásticas”, afirmou Niède Guidon.
O impacto socioeconômico das ações de Niède na região foi ressaltado durante o encontro da Rede de Inteligência. Ela explicou que a situação de vida das pessoas na Serra da Capivara era de desemprego e muitos problemas decorrentes da seca (o que dificultava manter plantações e produções mesmo para subsistência), e acreditou no espaço enquanto ponto para atrair turistas, já que a agricultura no local não funciona muito bem e não havia a possibilidade de se ter uma indústria ali. Na percepção da arqueóloga, foi (e ainda é) o turismo que permite a estrutura necessária para manter os sítios protegidos.
Ao ser questionada sobre qual legado ela acredita ter deixado para a população da Serra da Capivara, Niède Guidon respondeu que conseguiu que ali entendessem a importância dessas pinturas, para garantir a sua proteção. Em relação à atuação do Poder Judiciário pela causa, ela afirmou ter sempre recebido o apoio necessário.
Homenagem
Diretamente da Seção Judiciária do Piauí, o juiz federal Nazareno César Moreira Rêis expressou profunda admiração pela arqueóloga Niède Guidon, destacando sua contribuição para a arqueologia mundial. Rêis ressaltou a importância dela ao desafiar a teoria amplamente aceita do 'Clovis first' sobre a chegada do homem ao continente americano. E elogiou sua força de vontade e conhecimento científico, equiparando sua conquista à teoria da evolução de Charles Darwin.
O juiz federal também compartilhou detalhes sobre a jornada impressionante da Dra. Niede até a Serra da Capivara e a importância de seu trabalho não apenas do ponto de vista científico, mas também político e cultural na região. Como reconhecimento, ele anunciou à arqueóloga que a seção judiciária concedeu a ela a medalha Grã-Cruz do Mérito Judiciário Evandro Lins e Silva. A entrega da medalha está planejada para ocorrer pessoalmente em São Raimundo Nonato, em data a ser marcada, como uma homenagem mínima, mas cheia de respeito, gratidão e admiração pelos feitos realizados.
Outros magistrados também se manifestaram durante o encontro em reconhecimento ao trabalho desempenhado pela arqueóloga. Um exemplo foi o corregedor regional do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), desembargador federal Néviton Guedes, quer afirmou ser uma honra recebê-la na Rede para falar aos magistrados da 1ª Região.
Em especial, Néviton Guedes destacou a observação de Niède sobre a presença dos povos originários na região da Serra da Capivara. “Nós temos desenvolvido um esforço muito grande no último período no âmbito da Justiça na proteção dos povos originários”, pontuou o desembargador federal Néviton Guedes. Para ele, a aproximação com a arqueóloga é também uma maneira de atualizar e demonstrar a importância, para os juízes, das origens brasileiras – de um olhar para o Brasil desde ele próprio.
Sobre a Reint1
A Reint1 é coordenada pelo desembargador federal Carlos Augusto Pires Brandão, com encontros sempre às terças-feiras, para tratar dos diversos temas que afetam a prestação jurisdicional no âmbito do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) e das Seções e Subseções Judiciárias à Corte vinculadas.
Considerando seu papel institucional de promover aprimoramento às atividades realizadas pela Justiça Federal, a Rede recebe convidados de inúmeras instituições e ainda agentes sociais diversos, tendo se unido ainda, neste ano de 2023, à Escola de Magistratura Federal da 1ª Região, para proporcionar mais um campo de formação aos juízes e juízas da 1ª Região.
No último encontro da Rede, os magistrados também levantaram pontos específicos sobre o papel da Justiça na defesa dos parques nacionais. Também participou do encontro o desembargador federal do TRF1 Roberto Veloso.