
Ronaldo Nóbrega é jornalista, memorialista e Chairman do Grupo de Comunicação Justiça em Foco. Escreve sobre Judiciário, Legislativo, economia e tecnologia e atuou por mais de uma década como consulente perante o TSE. Foi autor da Consulta nº 1.185, que contribuiu para o debate sobre o fim da verticalização das coligações. Posteriormente, a Emenda Constitucional nº 52 assegurou aos partidos autonomia para definir suas coligações.
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A geografia eleitoral voltou a produzir uma velha doença brasileira: transformar divergência política em preconceito regional. Nas 72 horas seguintes ao primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, um levantamento da Ativaweb DataLab identificou 32.878.211 menções, links e compartilhamentos relacionando o Nordeste ao resultado das urnas. Desse universo, 82,2%, o equivalente a 27.025.889 manifestações, foram classificados como críticos ao voto da região.
A dimensão do fenômeno impressiona. Segundo o estudo, foram aproximadamente 456 mil ocorrências por hora, ou mais de 7.600 por minuto, durante três dias. Para os pesquisadores, o volume indica que o assunto deixou rapidamente os nichos partidários e se transformou em uma conversa nacional.
O problema não está apenas na crítica política. O levantamento mostra que parte da discussão avançou para ataques contra os nordestinos como grupo. Entre os termos identificados aparecem referências à pobreza, à suposta inferioridade intelectual, comparações com animais e doenças e até propostas de separação territorial do Nordeste.
Na análise qualitativa, a Ativaweb DataLab dividiu os comentários em sete categorias. A maior delas, responsável por 68,2% da amostra, reúne mensagens de adesão ou aplauso aos ataques. Outros 4,9% foram classificados como desumanização e insulto; 4,1% relacionavam o voto nordestino à dependência ou manipulação; e 1,9% defendiam alguma forma de segregação territorial.
Um dado particularmente revelador aparece na análise do vocabulário ofensivo. Expressões ligadas à vergonha e à autodepreciação representam 26,9% das ocorrências; o estigma da pobreza e da dependência, 22,1%; e referências à inferioridade intelectual, 18,3%. Somadas, essas três categorias concentram 67,3% dos termos ofensivos identificados na amostra.
Há um aspecto ainda mais incômodo. O levantamento encontrou nordestinos reproduzindo o discurso contra a própria região, com declarações de vergonha da origem ou pedidos públicos de desculpas. Para os pesquisadores, essas manifestações funcionam como amplificadores. Ao partir de pessoas da própria região, dão aparência de legitimidade a ataques reproduzidos posteriormente por usuários de outros estados.
O estudo também registra uma reação. Cerca de 14% dos comentários da amostra qualitativa formam um contradiscurso em defesa do Nordeste. São manifestações que contestam as generalizações, recuperam aspectos históricos e econômicos da região e alertam para o caráter discriminatório dos ataques. Até eleitores críticos ao resultado nordestino aparecem pedindo moderação, sob o argumento de que hostilizar uma região inteira pode produzir efeito político contrário às vésperas do segundo turno.
Do ponto de vista jurídico, o levantamento chama atenção para conteúdos que podem ultrapassar a fronteira da liberdade de expressão. A Lei 7.716/1989 pune a prática, indução ou incitação à discriminação ou ao preconceito relacionado à procedência nacional, e a legislação passou a prever agravamento quando o crime ocorre por meio das redes sociais ou da internet. A análise de eventuais crimes, naturalmente, depende das autoridades e das circunstâncias de cada caso.
O levantamento merece também uma leitura metodologicamente cuidadosa. Os 32,8 milhões representam menções, links e compartilhamentos, não 32,8 milhões de pessoas. A coleta utilizou dados públicos de Facebook, Instagram, TikTok, X, comentários do YouTube e Kwai. A classificação do sentimento foi realizada por um modelo proprietário da DataLab; já a investigação qualitativa mais detalhada utilizou uma amostra de 535 comentários de publicações de alto engajamento.
O número mais importante talvez não seja apenas o de milhões de manifestações. É a transformação da origem regional em critério de julgamento político. Eleições produzem vencedores e derrotados. Quando o eleitor passa a ser desqualificado não pela escolha que fez, mas pelo lugar onde nasceu ou vive, a disputa deixa o terreno normal da democracia e entra em território mais perigoso.
Como resume Alek Maracajá, CEO da Ativaweb DataLab: “Dados não têm sotaque”. O levantamento conclui que o desafio, diante da radicalização digital, é impedir que diferenças eleitorais sejam convertidas em uma ideia ainda mais corrosiva: a de que existem brasileiros mais legítimos do que outros.
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