
Criança estrangeira pode ter direito a alimentos mesmo vivendo fora do Brasil. Advogada especialista em Direito Internacional explica como a questão pode ser analisada
A possível confirmação de uma nova paternidade de Neymar traz uma questão jurídica que vai além do reconhecimento do vínculo entre pai e filha: como seria definida a pensão alimentícia caso a criança seja estrangeira e viva fora do Brasil?
Em uma situação como essa, estamos diante de uma relação familiar internacional, que exige a análise de diferentes elementos jurídicos. Não basta considerar a nacionalidade do pai. É preciso observar onde a criança possui residência habitual, onde o pai vive, qual autoridade será competente para analisar o pedido e quais tratados internacionais podem ser aplicados.
Se o exame de DNA confirmar a paternidade e o vínculo for reconhecido juridicamente, a criança passa a ter os direitos decorrentes da filiação, incluindo o direito aos alimentos. O fato de ser estrangeira ou morar em outro país não elimina essa obrigação.
“Uma vez confirmada e reconhecida juridicamente a paternidade, existe uma relação de filiação e, com ela, direitos e deveres. Entre esses direitos está a possibilidade de receber alimentos. A circunstância de a criança morar no exterior não afasta a responsabilidade do pai. O que muda é a complexidade jurídica do caso, porque será necessário definir qual legislação será aplicada e como uma eventual obrigação poderá ser estabelecida e cumprida internacionalmente.”
Qual legislação pode definir a pensão?
Essa provavelmente será uma das principais dúvidas caso a paternidade seja confirmada. Afinal, Neymar é brasileiro, mas a criança possui outra nacionalidade e reside fora do país.
Em situações internacionais envolvendo alimentos, não existe uma regra simples segundo a qual a legislação brasileira sempre prevalecerá por causa da nacionalidade do pai. A residência habitual da criança é um dos elementos que pode ter grande relevância para determinar a lei aplicável, mas outros fatores também precisam ser considerados.
“Não podemos afirmar previamente que será aplicada a legislação brasileira apenas porque o pai é brasileiro. Em Direito Internacional, precisamos analisar as regras de conexão previstas para cada situação. A residência habitual da criança é um elemento muito importante, assim como a residência do pai e os tratados internacionais existentes entre os países envolvidos. A definição precisa ser feita a partir das circunstâncias concretas do caso.”
Neymar poderia pagar pensão mesmo que a filha more no exterior?
A distância entre pai e filha não impede a existência ou a cobrança da obrigação alimentar. Existem mecanismos de cooperação jurídica internacional justamente para situações em que quem precisa receber os alimentos vive em um país diferente daquele onde reside o responsável pelo pagamento.
“É perfeitamente possível que uma obrigação alimentar seja estabelecida mesmo quando pai e filha vivem em países diferentes. Existem instrumentos de cooperação internacional que permitem o encaminhamento de pedidos, o reconhecimento de decisões e a cobrança dos valores devidos. O procedimento dependerá dos países envolvidos e das normas internacionais aplicáveis, mas morar no exterior não impede que a criança tenha seu direito aos alimentos protegido.”
A condição financeira de Neymar influencia o valor?
Outro ponto que deverá ser analisado é a capacidade econômica do jogador. A definição da pensão não significa, entretanto, que o patrimônio de Neymar será automaticamente utilizado como base para estabelecer um valor.
Em qualquer discussão sobre alimentos, é necessário avaliar as necessidades da criança e a capacidade financeira de quem deverá prestar a obrigação. Despesas com educação, saúde, alimentação, moradia e outras necessidades podem fazer parte dessa análise.
“A capacidade econômica do pai é um dos elementos que podem ser considerados, mas não existe um percentual automático sobre patrimônio ou renda. É necessário avaliar as necessidades concretas da criança e a capacidade contributiva do genitor. Em um caso envolvendo uma pessoa de elevada capacidade financeira, naturalmente essa realidade será analisada, mas o valor precisa ser definido de acordo com as circunstâncias específicas da criança e da família.”
A criança teria os mesmos direitos dos outros filhos de Neymar?
Caso a paternidade seja confirmada e reconhecida, a criança terá os direitos decorrentes da filiação. Sua nacionalidade ou o fato de morar em outro país não diminuem esses direitos.
“Uma vez reconhecida juridicamente a filiação, não existe uma categoria de filho com menos direitos em razão de sua nacionalidade ou da circunstância em que nasceu. A relação de filiação produz consequências jurídicas, entre elas o direito aos alimentos e os direitos sucessórios. O que pode mudar, em razão do elemento internacional, é a maneira como esses direitos serão reconhecidos e exercidos.”
O resultado do DNA já determina a pensão?
O teste de DNA é fundamental para esclarecer o vínculo biológico, mas é importante diferenciar a comprovação científica da paternidade de seu reconhecimento jurídico.
Depois de estabelecida formalmente a filiação, podem ser discutidas as demais questões relacionadas à relação entre pai e filha, incluindo alimentos, responsabilidade parental, convivência e direitos sucessórios.
“O resultado positivo do DNA é uma prova extremamente relevante para estabelecer o vínculo biológico, mas ainda precisamos observar a formalização jurídica dessa filiação. A partir do reconhecimento, passam a existir direitos e obrigações que deverão ser tratados de acordo com a legislação aplicável. Em uma situação internacional, também precisamos verificar como uma eventual decisão será reconhecida e cumprida nos países envolvidos.”
O que deve ser analisado em um caso como esse?
Casos de paternidade internacional exigem uma análise que vai além do vínculo biológico. É necessário identificar a residência habitual da criança, a localização do pai, a legislação aplicável, a existência de tratados internacionais e os procedimentos necessários para o reconhecimento e eventual cobrança dos alimentos.
O mais importante é compreender que a nacionalidade da criança não impede o direito à pensão. Ao mesmo tempo, não é possível determinar previamente qual será o valor ou afirmar que uma única legislação será aplicada sem conhecer todos os elementos do caso.
“Em Direito de Família Internacional, cada detalhe pode fazer diferença. Antes de definir a estratégia jurídica, precisamos conhecer a situação familiar, o país de residência da criança, o país onde vive o pai e os vínculos jurídicos existentes entre os Estados. Isso permite identificar a legislação aplicável e os caminhos disponíveis para garantir que os direitos da criança sejam efetivamente protegidos.”