
O episódio aconteceu na fazenda Bianco, em Cabeceiras (GO). O gerente da fazenda flagrou um caminhoneiro furtando milho e gravou a cena. O gerente chegou a tempo de repreender o caminhoneiro, obrigando-o a devolver as espigas furtadas e filmando toda a cena. Vale destacar que até esse ponto a atitude do gerente estava correta. Porém, a fala do gerente durante a filmagem causou revolta quando ele se referiu ao caminhoneiro de forma genérica: “essa goianada roubando milho”. O vídeo, que foi enviado em um grupo privado de WhatsApp foi vazado e publicado nas redes sociais, situação essa que causou revolta e muita gente repreendeu a indevida generalização do povo goiano e a exposição demasiada da figura do caminhoneiro em um crime de menor potencial ofensivo e em quantidade irrisória.
O proprietário da fazenda, ao saber de tudo que havia acontecido, conversou com seu funcionário, advertindo para os efeitos da expressão mal colocada no vídeo do flagrante de furto em sua propriedade e os efeitos daí advindos, e aconselhou a explicar e se reparar o mal-entendido, que procurou este veículo para se retratar com a população goiana e com o caminhoneiro:
“No calor do momento eu falei o que não devia. Tenho grande apreço pelo povo goiano. Fiquei muito revoltado porque esses casos de pequenos furtos são recorrentes aqui na fazenda. Só para ter uma ideia, no dia anterior (05.maio.2022) a filha do dono da fazenda ao chegar na sede, em um lugar perto de onde o motorista de caminhão foi flagrado, estava furtando milho e colocando dentro de uma carreta engatada em seu automóvel e quando questionado, esse homem fez um sinal ameaçador e continuou a colher o milho e depositar no reboque. No dia do ocorrido, também em local próximo, a gente havia plantado várias mudas de pinheiro para reflorestar uma área e de manhã cedo constatamos que também haviam sido furtadas.
Quando flagrei o motorista furtando os milhos, estava acompanhado de meu filho menor e por isso gravei o motorista, porém, pelos fatos ocorridos e pelo calor do momento confesso que não pensei e extrapolei nas palavras, dando margem a todo esse problema.
Nunca tive a intenção de ofender o povo goiano, muito pelo contrário, resido neste Estado há vinte e sete anos e tenho três filhos nascidos aqui no Goiás. Quando proferi as infelizes palavras “essa goianada roubando milho”, não me referi ao povo goiano, mas sim aquelas pessoas do estado que praticam esse tipo de crime. A expressão “goianada” é muito comum na região quando se referem aos Goianos, da mesma forma que aos gaúchos residentes, esses são chamados de “gauchada”.
A gente sempre fala que se a pessoa quer milho, basta pedir que nós damos, tanto é verdade que no próprio vídeo eu digo isso ao caminhoneiro. Mas o furto é uma coisa muito feia para uma pessoa, é desonroso, além de ser um crime. Quero pedir desculpas a todos pelo meu erro de fala infeliz, que foi simplesmente sem maldade e direcionado somente àqueles que furtam o produto do trabalho de gente trabalhadora e honesta da região. Também aproveito e peço desculpas ao caminhoneiro que, apesar de errado ao estar furtando os milhos, eu não deveria ter enviado a um grupo de WhatsApp privado de produtores da região, que sem meu consentimento, alguém de lá vazou o vídeo causando toda essa polêmica, e ele acabou pagando o pato por todas as vezes que eu presenciei esse tipo de situação. Isso aqui é o meu trabalho. Eu tento fazer da melhor forma, realmente disse o que não deveria, e novamente quero deixar claro que o povo goiano é honesto e trabalhador, é uma minoria que faz isso!”
Procurado o advogado do gerente da fazenda, este informou que ao analisar os áudios, lá não se constata nenhum tipo de ofensa que venha a caracterizar crime que venha em tese tipificar os crimes de racismo (art. 20 da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989), do crime de injúria racial (art. 140 do Cód. Penal), até porque não se verifica qualquer tipo de dolo nas falas e atitudes do Sr. Fernando Rosbach.
Explica o advogado que toda essa polêmica se deu por ter apresentado o vídeo em um grupo privado de WhatsApp e que de forma não autorizada foi transmitida de forma irresponsável, ilegal e criminosa logo após o fato ocorrido, ou seja, o vídeo não foi postado de forma dolosa e deliberada com o fim de ofender a população do Estado do Goiás.
Sustenta ainda que por uma infelicidade, as palavras ditas pelo gerente da fazenda, por ser uma pessoa simples, meio matuto, porém muito trabalhador, acabaram por serem mal interpretadas por várias pessoas, situação essa inflada e distorcida por pessoas que se denominam “influenciadores” que fomentam perante grupos de aplicativos de mensagens e nas redes sociais inverdades a respeito do ocorrido sem consultar os envolvidos e fazem acusações falsas e criminosas, que vão desde a “discriminação social” até a chamada “xenofobia”.
Por fim, informa que as palavras contidas nos vídeos em nada tem a haver com essas imputações ao qual estão sendo divulgadas, ou seja, as chamadas fake news, consubstanciados inclusive em discursos de ódio, e divulgação de conteúdos criminosos, ameaçadores e, obviamente, inverídicos, que começaram a surgir a partir do espalhamento do vídeo, que foram tomando vulto, tanto nos demais grupos de aplicativos de mensagens como nas redes sociais na internet e agora nos veículos de comunicação tradicionais (jornais, revistas e televisão), situação essa causada, que obrigou a serem tomadas todas as providências cabíveis na esfera criminal e cível contra os responsáveis.
Após manifestações públicas de repúdio ao episódio, inclusive do prefeito de Cabeceiras-GO, a retratação do gerente foi devidamente feita e publicada. Apesar da animosidade, são várias as lições que ficam após esse incidente. A primeira, e mais óbvia delas, é que furtar qualquer coisa em qualquer quantidade é crime, essa atitude jamais deve ser incentivada. A segunda é, deve-se ter cuidado com palavras e ações, mesmo que seja repreendendo um ato errado (mesmo um crime), isso não dá a ninguém o direito de generalizar ou de desrespeitar outrem, especialmente quando isso é tornado público. A terceira é, pode-se - deve-se - ter mais empatia com o próximo, sendo a retratação um ato de bondade e de coragem. Por fim, e não menos importante, os que se sentiram ofendidos, reconheçam as desculpas e sigam em frente, sem réplicas, tréplicas ou retaliações correndo o risco de cometerem o mesmo erro do gerente e dar muito pano para corda em uma ocasião que caberia mais serenidade.