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‘A representação feminina ainda é um tabu’, avalia Patrícia Ramos

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Da redação (Justiça Em Foco) por Mário Benisti. Foto: Assessoria TRT-2.
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São Paulo - O site Justiça Em Foco realizou uma rápida entrevista com a juíza Patrícia Ramos, ex-presidente da Associação dos Magistrados de Justiça do Trabalho da Segunda Região (AMATRA-2), sobre os desafios que a mulher enfrenta para entrar no mercado de trabalho. Na avaliação da magistrada, ainda há muito o que fazer no enfrentamento ao assédio e a emancipação da mulher no mercado de trabalho.

A seguir, trechos da entrevista:

Justiça Em Foco: No final de 2018 veio à tona o escândalo de assédio envolvendo o médium João de Deus. Este é um dos exemplos que ainda há muito o que se fazer na luta contra o assédio sexual?
Patrícia Ramos:
Não somente esse caso, tem-se inúmeros exemplos, mas claro que esta é uma clara amostra do combate ao assédio por mostrar que as questões são nítidas. No início de 2019, por exemplo, realizamos um levantamento sobre os casos de Feminicídio. Ainda estamos em março e a estatística é enorme. Este caso de Abadiânia é apenas um episódio, infelizmente marcante, mas é um dos episódios que tem chocado toda a sociedade.

Justiça Em Foco: Na sua avaliação, qual é o maior desafio para enfrentar o assédio?
Patrícia Ramos:
É o conhecimento, a desconstituição do nosso paradigma que coloca a mulher em um papel secundário e o homem como o ser dominador. E a mulher por sua vez, tem que ter coragem para denunciar.

Justiça Em Foco: A senhora acredita que a ascensão das mulheres aos postos de comando, nos cargos representativos, seria uma forma de conquistar a igualdade de gênero? 
Patrícia Ramos:
Seria sim, inclusive eu elaborei um estudo recentemente sobre o trabalho da mulher e a conclusão foi que não tem representação de mulheres nos postos de comando. Basta olharmos para os cargos ministeriais para vermos que tem apenas duas mulheres e a maioria do grupo é composta por homens. Outro fator que chamou a atenção é que na última eleição tivemos apenas uma mulher que conseguiu se eleger governadora nos 27 estados brasileiros. A partir do momento que as mentes dominantes, elas são de homens não tendo presença efetiva da mulher em locais centrais, tudo o que ela sofre é difícil de passar porque ela não tem representação feminina.

Veja os sindicatos: na sua maioria não se vê mulheres no comando, elas não participam de assembleia. O que vai ser aprovado? As mulheres estão presentes para reivindicar? O homem acaba decidindo por elas e muitas das vezes eles não possuem a sensibilidade a sensibilidade para saber o que é melhor para a mulher. O mesmo acontece nos tribunais superiores. O Tribunal Superior do Trabalho (TST), por exemplo, a sua maioria é composta por homens, como que terá a sensibilidade para julgar uma questão jurídica a luz da dificuldade que as mulheres enfrentam. 
Em muitos casos não é maldade, é aquela questão do ponto de vista. Se as mulheres não têm acesso a esses postos, a esses comandos, fica difícil de colocar até mesmo as nossas demandas. O mesmo acontece no Legislativo, com pouquíssimas mulheres. Se não há uma parlamentar lá que esteja para aprovar as leis com a experiência dela, vamos ter apenas um ponto de vista.  Assim, fica cada vez mais difícil ter a emancipação feminina.

Justiça Em Foco: No ambiente Judiciário, a senhora acha que ainda existe resistência para se concretizar a participação feminina?   
Patrícia Ramos:
A questão ainda é um tabu porque bate diretamente na questão de dominação. Por isso é considerado como “mimimi”, porque acredito que a sociedade de modo geral ainda não se deu conta de que determinados valores estão fixados na nossa mente que não conseguimos discernir. Existem determinadas coisas que passam despercebidas porque essa cultura de o homem estar sobre a dominação ainda acontece e muita gente não compreende a consequência disso. E isso ainda é um tabu porque mexer com este assunto é um tabu na sociedade inteira. Infelizmente a parte interna do Poder Judiciário acaba também sendo conservadora.

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