
Apesar das últimas críticas de Jair Bolsonaro e de seu filho Eduardo Bolsonaro à prova do Enem, essa controvérsia não deveria influenciar a decisão do novo Governo quanto à nomeação do Ministro da Educação. Afinal, Jair Bolsonaro foi eleito afirmando que a meritocracia seria um valor central em substituição ao antigo esquema do "toma lá dá cá".
A congruência de seu discurso será posta à prova ao nomear o novo Ministro da Educação. O nome para o cargo parecia óbvio antes da realização da última prova do ENEM, mas o cenário parece indefinido com a repercussão da questão que usa um texto sobre a linguagem de gays e travestis para avaliar o conhecimento do jovem sobre as características linguísticas que atribuiriam status de dialeto ao "pajubá".
A escolha para muitos especialistas da educação é óbvia. A Dra. Maria Inês Fini é nome adequado a ocupar a pasta. Dotada de um currículo invejável e idealizadora do ENEM, a professora Maria Inês é quase uma unanimidade entre entidades representativas e especialistas do setor. O nome da doutora ganhou destaque após a eleição de Bolsonaro e de seu discurso a favor da competência profissional.
Contudo, após a recente polêmica em torno do ENEM 2018, o Ministério da Educação pode não ser uma escolha tão óbvia. Ou a decisão de Bolsonaro se pautará em agradar setores mais radicais de seus eleitores ou estará coerente com a ideologia meritocrática que busca inverter a lógica da política brasileira de trocar cargos por favores políticos.
Nesse sentido, a Dra. Maria Inês Fini é profunda conhecedora da funcionalidade do MEC, com trânsito em todas as alas que compõem a instituição. Devido à sua ampla experiência em currículo e avaliação da educação brasileira, a professora tem pleno domínio para conduzir a gestão de políticas públicas educacionais brasileiras e contribuir com um projeto de nação.
O Enem é exemplo dessa competência. O Exame, de cuja idealização a professora Maria Inês Fini é uma das responsáveis, é atualmente uma das mais importantes politicas de acesso à educação superior no Brasil e também em algumas das mais prestigiadas universidades portuguesas.
Modernizado e inserido no mundo globalizado, no qual não basta apenas aferir conceitos isolados e específicos, o ENEM permite avaliar não somente o domínio de conteúdos, mas também visão dos alunos em torno da realidade. O jovem que está concluindo o ensino médio – futuro profissional – deve se apropriar da evolução do conhecimento da sociedade como um todo. Não se trata apenas de ingressar em um curso superior para fornar-se e exercer uma profissão, desconectado das questões que circulam no mundo, mas de desenvolver uma consciência das constantes mudanças de costumes, práticas, éticas e conceitos que regem a sociedade civilizada.
As críticas ao Enem que recaíram na imagem da Dra. Maria Inês Fini prendem-se à questão coloquial das minorias e seu viés de pensamento via expressões, sem contudo observarem que o item em si apresentava uma informação presente na sociedade atual e certamente no cotidiano dos jovens para avaliar a competência do estudante em identificar os elementos que estruturam um dialeto.
É sabido que o processo de feitura e aplicação do ENEM é regido por um processo totalmente democrático que envolve milhares de especialistas. Mas, mesmo que a decisão final coubesse a uma única pessoa, certamente a Dra. Maria Inês Fini manteria a questão “polêmica”, não por se tratar de minorias, mas por se tratar de um item que se propõe a avaliar uma competência linguística.
Por outro lado, para além da questão de linguagens, fechar os olhos ou simplesmente ignorar esse tema não eliminará a necessidade de os jovens saberem conviver com as diferentes formas de expressão linguística circulantes em todos os meios, incluindo o profissional.
Desconhecer o fato de que existem linguagens das “minorias” e, ainda, rechaçar essa temática é contribuir de modo ignorante com a repressão que origina a discriminação. Os direitos de liberdade do pensamento e defesa das ideias norteiam os princípios democráticos. O item em tela é um tema que se insere em um amplo debate que ultrapassa fronteiras da intolerância em todos os continentes.
A prova, como um todo, atende ao princípio resguardado pela constituição de que a educação será promovida à luz da diversidade de ideias e concepções pedagógicas.
Todos nós sabemos que “o lar educa”. Mas conjuntamente à família, cabe à escola ensinar a criança, jovens e adolescentes a conviverem num mundo além-fronteiras domésticas, onde a coexistência e o respeito aos opostos representam um traço de união para a formação de uma sociedade. A crítica de Jair e Eduardo Bolsonaro não é compatível com a realidade dos nossos dias nem com o real propósito do que se vê no Exame.
E agora? Jair Bolsonaro manterá o discurso meritocrático e permanecerá afirmando que não é homofóbico? Ou dará uma satisfação à parcela mais radical de seus eleitores e extirpará toda e qualquer alusão às minorias sociais? Essas questões serão respondidas quando o novo Presidente decidir sobre a nomeação do Ministério da Educação.