
Por Caio rocha
A recente decisão dos Estados Unidos de impor tarifas adicionais a produtos agrícolas brasileiros – incluindo aço, etanol e proteína animal – reacende um debate estratégico: qual o papel do Brasil no comércio mundial e como devemos responder a esse tipo de protecionismo unilateral? A resposta é simples e poderosa: o Brasil é maior que o tarifaço de Trump.
Não se trata de minimizar os impactos econômicos imediatos. Algumas cadeias produtivas sentirão a pressão, e é legítima a preocupação de produtores e exportadores. Mas o Brasil já demonstrou, ao longo das últimas décadas, sua resiliência, competitividade e capacidade de diversificação de mercados. Somos hoje um dos maiores exportadores de alimentos do planeta, abastecendo mais de 200 países, com solidez tecnológica, sanidade reconhecida internacionalmente e uma agricultura que incorpora inovação e sustentabilidade.
Ao invés de respostas reativas e retaliações apressadas, o Brasil deve aprofundar sua estratégia de diplomacia comercial inteligente, fortalecendo acordos com América do Sul, Ásia, Oriente Médio e África. A assinatura de novos tratados, como o recente acordo Mercosul-Singapura, é um sinal claro de que temos alternativas e queremos jogar no time da integração, não do isolamento.
O “tarifaço” é, na verdade, um sintoma da fragilidade de uma visão ultrapassada de comércio exterior. O mundo está exigindo transparência ambiental, rastreabilidade, baixo carbono e inclusão social – e o agro brasileiro, com suas práticas modernas e cadeias rastreadas, tem todas as condições de liderar essa nova agenda.
Precisamos de firmeza e serenidade. Fortalecer nossa posição na OMC. Investir em agregação de valor, certificações, e diplomacia técnica. Proteger nossos produtores sem abandonar o caminho da abertura responsável.
O Brasil não será refém de instabilidades políticas alheias. Somos uma potência agroambiental, e é assim que devemos nos portar: com altivez, estratégia e visão de longo prazo.
Caio Rocha, engenheiro agrônomo, mestre em Gestão Pública e doutor em Ciências da Educação, foi secretário nacional, secretário de Estado da Agricultura do Rio Grande do Sul e presidente da EMATER/RS. Atualmente, é consultor internacional do IICA.