
Quando o tributo sobe à mesa do dono: a nova gestão de risco das empresas
Com o método Gestão Tributária 360, a TAG Gestão Tributária propõe olhar a empresa por inteiro, da estratégia fiscal à governança documental e aos contratos, para transformar segurança jurídica em caixa e preparar o negócio para crescer, captar e negociar.
Durante anos, imposto foi assunto de contador. A reforma tributária mudou esse endereço. Com a chegada da CBS e do IBS, a conversa deixou de ser sobre apuração e passou a mexer com preço, margem, contrato e fluxo de caixa. Ou seja, subiu à mesa do dono. O que antes cabia num relatório de fechamento agora define se a operação anda ou trava.
Para Lucas Terra, Luis Felipe Aranda e Felipe Marques, sócios da TAG Gestão Tributária, a transição funciona como um raio-x da maturidade de cada empresa. Quem construiu a operação sobre planilha, contrato de modelo e sistema mal parametrizado vai sentir primeiro. E vai sentir no lugar que dói, o caixa.
É desse diagnóstico que nasce o método da casa, batizado de Gestão Tributária 360. A ideia é simples de enunciar e trabalhosa de executar. Consiste em olhar a empresa inteira antes de propor qualquer solução, encontrar o que está escondido, corrigir a fragilidade e deixar a estrutura pronta para o próximo ciclo, seja ele uma fiscalização, uma sucessão ou a entrada de um investidor.
São três frentes que trabalham juntas: estratégia tributária, governança documental e inteligência contratual.
A estratégia tributária cuida do dinheiro. Ela revisa regime fiscal, créditos, benefícios, formação de preço e exposição a autuação, e mede o efeito da reforma sobre cada linha do resultado. Bem feita, deixa de ser custo de conformidade e vira alavanca de competitividade.
A governança documental cuida da informação. Com a reforma, a nota fiscal virou infraestrutura. Um campo errado hoje pode virar retenção indevida amanhã. A frente organiza rastreabilidade, parametrização de sistema e classificação item a item para que o dado chegue certo à transação e resista a uma auditoria anos depois.
A inteligência contratual cuida das relações. Contrato, para a TAG, é ferramenta de previsibilidade e de poder de negociação, não papel de gaveta. A frente reescreve os acordos da empresa com sócios, clientes, fornecedores e parceiros para fechar as portas por onde costuma entrar litígio.
Em entrevista à Revista Justiça em Foco (julho.2026), os três sócios sustentam a mesma tese. Numa economia de dados cruzados e fiscalização digital, segurança jurídica virou ativo, e sai mais barato construí-la antes do que consertá-la depois.
Lucas Terra é advogado tributarista empresarial, especialista em negócios internacionais e vice-presidente de Comissão de Direito Tributário da Associação Brasileira de Advogados, com atuação em operações de empresas nacionais e multinacionais. Luis Felipe Aranda é advogado especializado em Direito Empresarial, dedicado a ajudar médias e grandes empresas a gerar caixa por meio de planejamento tributário. Felipe Marques é tributarista, especialista em gestão empresarial e planejamento tributário, com trajetória nas áreas de TAX e contabilidade e experiência concentrada na reforma tributária. Juntos, à frente da TAG Gestão Tributária, atendem médias e grandes empresas nacionais e multinacionais.
Justiça em Foco: A reforma tributária já pode ser considerada um teste de estresse para as empresas brasileiras?
Luis Felipe Aranda: É o maior deles em uma geração. O debate público ficou preso na alíquota, mas o primeiro golpe é operacional. Com a CBS e o IBS já em fase de testes, a nota fiscal passou a pedir classificação item a item, código de situação tributária e o destaque separado de cada novo tributo. E o calendário não ajuda. Desde janeiro o documento já carrega esses campos e, a partir de agosto, o regime regular não emite mais nota sem eles. Na prática, se o documento sai errado, a operação para. É como pedir que a empresa aprenda um idioma novo sem deixar de conversar com o mercado. Aquilo que era seguro ontem precisa ser reexaminado hoje, do preço na ponta ao contrato de fornecimento.
Justiça em Foco: Na prática, a reforma pode travar empresas que não ajustarem notas fiscais e processos internos?
Lucas Terra: Pode, e o efeito é bem concreto. O documento fiscal deixou de ser tarefa de retaguarda para se tornar parte da engrenagem que faz a mercadoria circular e o serviço ser faturado. Uma nota rejeitada não é um mero aborrecimento do fiscal. É caminhão parado no pátio, receita que não entra, cliente que cobra explicação. A empresa que não parametrizou o sistema e não tem governança sobre esses dados vai descobrir a fragilidade no pior momento, no meio de uma operação.
Justiça em Foco: A reforma criou esse problema documental ou apenas tornou a fragilidade mais evidente?
Luis Felipe Aranda: Ela não plantou a desorganização, apenas acendeu a luz sobre ela. Muita empresa já vivia com documentação frouxa, contrato genérico e classificação fiscal improvisada, e seguia funcionando porque o sistema antigo, embora complexo, era conhecido. Agora há dois regimes rodando ao mesmo tempo, e o improviso não passa mais despercebido. O que era problema de contador virou problema de dono.
Justiça em Foco: O que significa Gestão Tributária 360 nesse novo cenário?
Lucas Terra: Significa recusar a solução de prateleira. Duas empresas do mesmo setor podem precisar de desenhos completamente diferentes, porque mudam os sócios, o modelo de negócio, os Estados em que operam, o patrimônio e o apetite de crescimento. O 360 é o compromisso de enxergar tudo isso antes de recomendar qualquer coisa. Ele protege o que a empresa já construiu e, ao mesmo tempo, arruma o terreno para o que ela ainda vai construir. Esse trabalho começa pela estratégia tributária, passa pela governança dos documentos e pelos contratos e chega à proteção do patrimônio.
Justiça em Foco: Como esse diagnóstico é feito dentro de uma empresa?
Luis Felipe Aranda: Gosto de dizer que é alfaiataria, não confecção. A gente entra para entender a operação de ponta a ponta antes de cortar qualquer tecido. Nesse mergulho aparece o que interessa, onde há risco contratual, onde há exposição tributária e onde existe oportunidade de eficiência ou de reorganização que ninguém tinha visto. Só então desenhamos a estratégia. O objetivo é sempre o mesmo, antecipar o que, deixado como está, viraria ônus lá na frente.
Justiça em Foco: Por que a governança documental ganhou peso estratégico com a reforma?
Felipe Marques: Porque governança, no fundo, é rastreabilidade. A empresa precisa saber de onde veio a informação, quem a validou, que regra foi aplicada e onde o documento está guardado para o dia em que alguém pedir. Num período em que tributos antigos e novos convivem por anos, essa cadeia de custódia decide muita coisa. Quem não tiver controle sobre nota, contrato e dado interno não corre só o risco de pagar imposto a mais ou a menos. Corre o risco de comprometer o crédito, o faturamento e a própria capacidade de competir.
Justiça em Foco: O período de transição aumenta a complexidade para o empresariado?
Luis Felipe Aranda: Aumenta, e de forma desigual. Quem já patinava no sistema atual vai lidar com um volume muito maior de informação, validação e cruzamento. A transição obriga a empresa a manter dois mundos funcionando ao mesmo tempo, e isso só se sustenta com as áreas conversando. Fiscal, jurídico, financeiro, tecnologia e comercial precisam falar a mesma língua. A reforma parou de ser um assunto que se resolve entre o contador e o advogado tributarista.
Justiça em Foco: O Split Payment muda a forma como as empresas administram o caixa?
Felipe Marques: Muda, e muda de um jeito que assusta quem ainda confia na conferência manual. O split payment começa a valer em 2027, mas quem esperar 2027 para pensar nele vai chegar sem fôlego. Quando ele entra, o imposto é separado na própria liquidação do pagamento e sequer transita pela conta da empresa. A partir daí, um erro no documento vira retenção indevida, pedido de restituição e dinheiro preso justamente quando faria falta. É por isso que insistimos na integração entre jurídico, fiscal, financeiro e tecnologia desde já. A informação precisa estar correta na hora da transação, não no fechamento do mês. Quanto menos maturidade documental, mais o caixa vai sentir o baque.
Justiça em Foco: Uma empresa financeiramente saudável pode estar juridicamente vulnerável?
Luis Felipe Aranda: O tempo todo. Vemos negócios sólidos, competitivos, com boa margem, que carregam uma estrutura frágil sem saber. O problema não aparece no balanço do mês. Ele aparece numa fiscalização, numa briga entre sócios, numa mudança de lei ou na hora de vender a empresa. No diagnóstico, olhamos também para fora, para como o concorrente está usando benefício fiscal, estrutura e planejamento para ganhar terreno. Muitas vezes a empresa não tem problema de faturamento, tem problema de competitividade, e está deixando de entrar em mercados que o planejamento certo abriria.
Justiça em Foco: Quais erros contratuais mais expõem empresas a disputas e perdas financeiras?
Lucas Terra: A parte societária é a mais delicada. É impressionante quantas empresas de porte não têm um acordo de sócios que preste. Falta regra clara sobre deveres, saída de sócio, sucessão, divisão de resultado e o que acontece quando alguém descumpre o combinado. Aí surge o desentendimento e vira processo, algo que um bom contrato teria evitado por uma fração do custo. O erro raramente é de má-fé. É de despreparo. Ferramenta jurídica bem construída antecipa a briga e, quando não evita, pelo menos define as regras do jogo antes de o jogo começar.
Justiça em Foco: Por que antecipar riscos é mais eficiente do que judicializar conflitos?
Luis Felipe Aranda: Porque quem espera o problema estourar quase sempre paga a conta mais cara. Prevenir é uma decisão de negócio, não um preciosismo jurídico. O Judiciário cobra caro em tempo, dinheiro e imprevisibilidade, e o desgaste de uma disputa longa contamina a operação. Um contrato bem redigido e o instrumento certo no lugar certo dão à empresa uma saída mais rápida e menos dolorosa. É a diferença entre discutir a regra no papel, com calma, e discuti-la no tribunal, sob pressão.
Justiça em Foco: Como holdings, reorganização societária e sucessão entram nessa agenda de proteção?
Lucas Terra: Entram como planejamento de futuro, não apenas de defesa. Uma reorganização bem pensada prepara a empresa para crescer, vender uma fatia, receber investidor ou passar o bastão para a próxima geração sem trauma. Holdings e estruturas adequadas criam camadas de proteção para o patrimônio da pessoa física e da jurídica. E, num momento de mudança tributária, antecipar essas estruturas costuma sair mais barato do que reagir a elas. Organiza a transferência de bens, reduz custo lá na frente e desarma conflitos de sucessão antes que apareçam.
Justiça em Foco: A Gestão Tributária 360 ajuda na captação de investimentos, em fusões e aquisições?
Luis Felipe Aranda: Esse é um dos pontos onde o método mais se paga. Quando o mercado vai avaliar uma empresa, o faturamento é só o começo da conversa. O investidor abre o capô e olha estrutura societária, contratos, passivo tributário, risco trabalhista, governança e a organização dos documentos. Uma empresa com bons números pode perder valor ali mesmo, na due diligence, se essa base estiver bagunçada, e não é raro uma operação inteira travar por causa disso. A Gestão Tributária 360 age antes desse momento. Ela arruma a casa, corrige o que está frágil e mostra maturidade. O resultado é uma empresa que negocia de igual para igual, protege o próprio valuation e cresce com quem escolher como parceiro.
Justiça em Foco: A automação passa a ser indispensável nesse novo ambiente tributário?
Felipe Marques: Indispensável, mas não suficiente sozinha. Automatizar um processo mal desenhado só faz o erro acontecer mais rápido. Tecnologia entrega o seu melhor quando vem acompanhada de processo claro e de gente que entende a regra por trás do clique. O sistema tem de estar corretamente parametrizado, e a empresa precisa auditar os próprios dados com frequência, porque operação, relação comercial e norma mudam o tempo todo. Ferramenta genérica não sustenta segurança jurídica. Ela precisa ser calibrada caso a caso.
Justiça em Foco: Qual é a principal mensagem para o empresário diante da reforma tributária?
Luis Felipe Aranda: Que o relógio já está correndo. Esperar a nota ser rejeitada, a multa chegar ou a operação travar para só então agir é fazer gestão de crise, e gestão de crise é sempre a versão mais cara de resolver o problema. O caminho seguro é revisar processo, contrato, sistema e estrutura enquanto ainda dá para escolher. A reforma não é um evento do futuro. É o presente. Quem entender a própria operação e desenhar cenários vai continuar competitivo. Quem adiar, vai aprender no susto.
Justiça em Foco: Para encerrar, que orientação vocês deixam às empresas?
Luis Felipe Aranda: Fuja da solução genérica. Cada empresa tem particularidades que só aparecem quando alguém se dá ao trabalho de olhar de perto. Planejamento tributário, governança dos documentos, contrato bem feito e prevenção não são luxo de grande companhia. São o que protege caixa, patrimônio e crescimento.
Felipe Marques: E parem de tratar dado fiscal como burocracia. Ele é ativo. A empresa que enxerga a informação tributária como matéria-prima de decisão, e não como obrigação a cumprir, chega à transição na frente.
Lucas Terra: No fim, a lição técnica é que o risco de uma empresa mora muito além da conta de imposto. Está na qualidade dos documentos, na consistência dos contratos, na governança e na existência de uma estratégia jurídica que converse com o negócio. Num ambiente de dados cruzados e fiscalização digital, o detalhe de ontem virou o impacto de caixa de amanhã. E isso já não dá mais para ignorar.
ronaldo.nobrega@justicaemfoco.com.br
Responsabilidade do Autor pelo conteúdo do artigo: O autor é Exclusivamente Responsável pela veracidade e autenticidade dos dados apresentados, pelas opiniões expressas e pelo conteúdo integral publicado. Os Editores do Portal, site Justiça em Foco, isentam-se de qualquer responsabilidade por erros ou omissões nos dados e não endossam necessariamente as opiniões expressas pelo autor. Cabe ao autor garantir que todos os Direitos de Terceiros estão devidamente respeitados e que todas as devidas permissões foram obtidas no caso de Uso de Material Protegido por Direitos Autorais, principalmente de FOTOS. É também responsabilidade do autor informar sobre qualquer potencial conflito de interesse relacionado ao manuscrito submetido.
Celina Leão herda cenário fiscal difícil, afirma presidente do TCDF
STF debate impactos da inteligência artificial e desafios da governança judicial
Aditamento ao plano de recuperação judicial não produz efeitos retroativos
FUNCEX debate investimentos internacionais em infraestrutura
Bets: regulação avança, mas mercado ilegal segue como desafio no Brasil
Debate a pedido de Paulo Paim sobre fiscalização de políticas sociais do governo