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Ronaldo Nóbrega
Ronaldo Nóbrega

Ronaldo Nóbrega é jornalista e memorialista. Escreve sobre o Judiciário, o Legislativo, tecnologia, economia e temas de interesse público. É CEO e editor do portal Justiça em Foco, atuou por 12 anos como consulente no TSE e foi autor da Consulta nº 1.185/2005, que impulsionou o debate sobre o fim da verticalização partidária, posteriormente consolidado pela Emenda Constitucional nº 52/2006.

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IA nas eleições: proteger o voto sem tutelar o debate

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Ronaldo Nóbrega 10 de agosto de 2026
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A criação pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do Conselho Consultivo sobre Integridade Informacional nas Eleições de 2026 é uma iniciativa justificável diante de uma ameaça concreta. A inteligência artificial ampliou extraordinariamente a capacidade de produzir e disseminar conteúdos falsos com aparência de verdade.

Deepfakes, clonagem de voz, imagens fabricadas e campanhas automatizadas podem alcançar milhões de eleitores antes que autoridades, imprensa ou os próprios atingidos tenham condições de reagir. Ignorar esse fenômeno seria irresponsável.

Mas reconhecer o problema não significa aceitar qualquer solução.

A Justiça Eleitoral terá de distinguir com rigor fraude digital de manifestação política. Combater conteúdos artificialmente produzidos para enganar deliberadamente o eleitor é necessário. Transformar o Estado em árbitro permanente daquilo que pode ou não ser dito numa campanha seria um grave equívoco.

A discussão ganha dimensão ainda maior quando considerada a própria arquitetura das redes sociais.

Alek Maracajá, autor de Brasil Digital nas Entrelinhas da Polarização Política, chamou atenção para esse fenômeno durante participação no Café com ANER, da Associação Nacional de Editores de Revistas. Com base em uma análise de Big Data sobre o comportamento digital entre 2017 e 2024, sustentou que as plataformas não criaram a polarização política brasileira, mas contribuíram decisivamente para amplificá-la.

Algoritmos destinados a aumentar o engajamento tendem a entregar aos usuários conteúdos compatíveis com suas preferências. Formam-se bolhas, diminui o contato com posições divergentes e aumenta o risco de radicalização.

A inteligência artificial acrescenta poder a essa engrenagem. As plataformas já conseguem selecionar públicos com enorme precisão. Agora, sistemas generativos permitem produzir, em escala e velocidade inéditas, conteúdos específicos para essas audiências.

Para o jornalismo, a consequência é igualmente preocupante. O desafio não será apenas desmentir informações falsas, mas preservar a credibilidade da informação profissional num ambiente em que imagens, vídeos e vozes poderão ser artificialmente reproduzidos com crescente realismo.

Há, portanto, razões suficientes para discutir transparência das plataformas, responsabilidades e regras para o emprego da inteligência artificial nas campanhas.

O cuidado necessário está na extensão dessas regras.

Esse será um dos principais testes das eleições de 2026 e da gestão do presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques (foto). A hipótese discutida por integrantes da Corte de proibir o uso de inteligência artificial em vídeos eleitorais pode parecer uma resposta objetiva aos riscos de manipulação, mas exige cautela. A mesma tecnologia utilizada para produzir uma fraude também possui aplicações legítimas na comunicação política.

Proibições excessivamente amplas podem substituir um problema por outro.

A democracia precisa estar protegida contra manipulações tecnológicas. Precisa estar igualmente protegida contra intervenções desproporcionais sobre a liberdade de expressão.

O papel do TSE não deve ser estabelecer a verdade política, mas assegurar que a disputa eleitoral ocorra dentro da lei, com transparência e igualdade de condições.

Fraude deve ser combatida com firmeza. Opinião, crítica e dissenso devem permanecer livres.

Encontrar esse equilíbrio será o verdadeiro desafio eleitoral de 2026.