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Alckmin mira o “manicômio tributário”, mas Brasil ainda convive com risco de apagão logístico

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Ronaldo Nóbrega 22 de junho de 2026
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O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou neste sábado (20.6.2026) que o sistema de impostos brasileiro é um “manicômio tributário” e defendeu a reforma aprovada no governo Lula como instrumento para atrair investimentos e reduzir o chamado custo Brasil.

A frase é forte, mas o problema brasileiro vai além da tributação. Pouco adianta vender a reforma tributária como senha de entrada para novos investimentos se o país continuar incapaz de enfrentar outro gargalo estrutural: a ameaça de um apagão logístico provocado pela falta crescente de motoristas de caminhão.

Durante evento do setor ferroviário, em Dom Aquino, no Mato Grosso, Alckmin disse que a complexidade tributária afasta empresas estrangeiras e dificulta a competitividade nacional.

“O sistema tributário brasileiro é um manicômio tributário. Afasta quem quer exportar para o Brasil e investir em nosso país nos mais diversos setores, sem contar o custo Brasil. Com a reforma tributária do presidente Lula, vamos mudar isso”, afirmou o vice-presidente.

A declaração cumpre uma função política clara. Alckmin fala ao setor produtivo, ao empresariado e ao investidor que ainda observa o Brasil com cautela. A mensagem do governo é que o país quer se tornar mais previsível, mais simples e mais competitivo.

Mas previsibilidade tributária não resolve, sozinha, a fragilidade física da economia brasileira. O Brasil ainda depende excessivamente do transporte rodoviário. Dois terços da carga movimentada no país passam pelas estradas. E é justamente nesse setor que cresce o alerta.

Segundo dados da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos, o número de condutores habilitados para veículos pesados caiu mais de 60% na última década. Em 2014, o país contava com cerca de 3,5 milhões de motoristas profissionais. Dez anos depois, esse contingente foi reduzido para 1,3 milhão.

A falta de renovação é visível. A idade média dos motoristas ativos já chega a 46 anos. Os jovens não têm demonstrado interesse pela profissão, afastados por baixos salários, insegurança nas rodovias, risco de roubo de cargas, longas jornadas e falta de infraestrutura adequada de apoio.

O resultado é uma pressão crescente sobre as transportadoras. Processos de contratação que antes levavam cerca de dois meses agora podem durar até seis. Sem motoristas suficientes, o frete encarece, a indústria perde eficiência e o preço final dos produtos tende a subir para o consumidor.

Esse é o ponto que precisa entrar no debate nacional. A reforma tributária pode simplificar impostos e melhorar o ambiente de negócios. Mas investimento não chega apenas por causa de uma nova regra fiscal. Ele depende também de logística, segurança, mão de obra, infraestrutura e capacidade de escoamento da produção.

A crise dos caminhoneiros expõe uma vulnerabilidade antiga: o Brasil construiu uma economia continental apoiada em rodovias insuficientes, perigosas e caras. A solução passa pela valorização do motorista, com melhor remuneração e melhores condições de trabalho, mas também pela diversificação da matriz de transportes.

O evento em Mato Grosso, voltado ao setor ferroviário, reforça esse diagnóstico. Ferrovias não são luxo. São condição estratégica para um país que pretende exportar mais, reduzir custos e disputar espaço no comércio global. Grandes volumes precisam ser transportados por longas distâncias com menor custo e mais segurança, deixando ao caminhão o papel essencial da distribuição regional e da chamada última milha.

Alckmin tem razão ao chamar o sistema tributário de “manicômio”. Mas o Brasil não será competitivo apenas porque simplificou impostos. Será competitivo quando conseguir integrar reforma tributária, infraestrutura, logística, segurança nas estradas e valorização de quem mantém o país abastecido.

Sem isso, a reforma pode até abrir a porta para o investidor. O problema será fazer a produção chegar ao destino.