
Alek Maracajá é CEO da Ativaweb, referência nacional em Big Data, inovação e análise de dados públicos.
Violência digital no Brasil: estudo da Ativaweb DataLab revela nova estrutura de crimes online
A Ativaweb DataLab finalizou, nesta semana, um estudo aprofundado sobre crimes digitais no Brasil e os dados chamam atenção. Mais do que crescimento, o que se observa é uma mudança estrutural no comportamento social dentro das plataformas. Em 2025, foram 87.689 denúncias de crimes cibernéticos, com alta de 28,4%, enquanto a misoginia online cresceu 224,9%, o maior avanço entre todas as categorias analisadas. No ambiente digital, a escala é ainda mais expressiva: análises da Ativaweb, com base em dados públicos de Instagram, Facebook, X e TikTok, identificaram mais de 32 milhões de interações relacionadas a conteúdos de ataque, exposição e violência digital ao longo do ano o que representa, proporcionalmente, 1 ocorrência de interação violenta para cada 5 brasileiros conectados.
Entre os principais tipos de crimes identificados estão: cyberbullying, com 452 registros oficiais (com elevada subnotificação); stalking, com 95.026 casos e crescimento contínuo; ameaças e assédio digital, especialmente contra mulheres; além da disseminação de ódio e misoginia online e do uso de inteligência artificial para criação de deepfakes e manipulação de identidade. A análise semântica realizada pela Ativaweb DataLab identificou padrões recorrentes de linguagem que ajudam a entender o comportamento desses ataques, com destaque para termos como “exposição”, “humilhação”, “ameaça”, “vazamento”, “ódio”, “perseguição”, além de expressões de julgamento e agressividade como “traição”, “safado”, “safada”, “mereceu”, “tem que morrer”, “cancelado” e “destruir”. Esses termos revelam não apenas o ato, mas a intensidade emocional e o incentivo coletivo à violência digital.
A internet não criou o lado sombrio apenas deu escala a ele.
O estudo também evidencia um ponto sensível: o comportamento humano no ambiente digital. A internet cria uma sensação de anonimato e distanciamento que reduz barreiras sociais e morais. As pessoas se escondem atrás das telas e, muitas vezes, revelam um lado que não aparece no mundo físico. Isso ajuda a explicar por que 58% dos jovens já sofreram algum tipo de violência digital, enquanto os registros oficiais seguem limitados. Existe hoje uma clara defasagem entre o que acontece na prática e o que é formalmente registrado.
Hoje, qualquer pessoa pode ser vítima e qualquer conteúdo pode virar sentença. A reputação digital pode ser destruída em minutos e levar anos para ser reconstruída.
O que mais surpreende não é apenas o volume, mas a lógica por trás desses dados. A violência digital hoje é contínua, replicável e amplificada por algoritmos que priorizam emoção, conflito e exposição. Com a entrada da inteligência artificial, esses comportamentos passam a ser também automatizados e escaláveis. Estamos diante de uma nova infraestrutura de violência, mediada por tecnologia e com capacidade de impacto nacional em poucos minutos. A violência não começa no algoritmo mas é nele que ela ganha escala, velocidade e poder.