MAIS RECENTES
 
Por Ronaldo Nóbrega
Por Ronaldo Nóbrega

CEO e editor do portal Justiça em Foco.

ronaldo.nobrega@justicaemfoco.com.br

Transmissão avança, mas ainda é insuficiente

Copyright Marcello Casal jr
Imagem do Post
Ronaldo Nóbrega 02 de fevereiro de 2026
Ouça este conteúdo
1x

O envio do Plano de Outorgas de Transmissão de Energia Elétrica (POTEE) 2025 pelo Ministério de Minas e Energia para autorização da ANEEL convida a uma análise mais sóbria do que a apresentada nos comunicados oficiais. Os números aprovados revelam um esforço relevante, mas aquém do desafio imposto pela transformação em curso no setor elétrico brasileiro.

O Despacho nº 200/2026 autoriza cerca de R$ 1,05 bilhão em investimentos ao longo de quatro anos, distribuídos em 687 reforços de pequeno porte no sistema de transmissão. Em termos absolutos, trata-se de um volume expressivo. No contexto de um sistema interligado de dimensões continentais, pressionado pela rápida expansão de fontes renováveis intermitentes e por mudanças no perfil de consumo, o montante parece mais próximo do piso necessário para evitar falhas do que de uma estratégia capaz de antecipar gargalos futuros.

A pulverização das obras entre 50 transmissoras tem vantagens operacionais, ao permitir intervenções rápidas e localizadas. Ao mesmo tempo, expõe uma fragilidade estrutural do modelo. Reforços de pequeno porte cumprem papel relevante na mitigação de riscos imediatos, mas não substituem investimentos de maior envergadura nem uma visão integrada de médio e longo prazo. O fato de a maioria das intervenções ser classificada como de necessidade imediata sugere que o sistema tem operado sob constante pressão, reagindo a problemas já identificados, em vez de se preparar para cenários mais exigentes.

Os estudos técnicos elaborados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico são consistentes e refletem as demandas reais da operação. A aprovação integral das propostas pela ANEEL indica convergência entre análise técnica e avaliação regulatória. Ainda assim, o dado de que 100% dos reforços previstos foram considerados indispensáveis levanta um sinal de alerta sobre a reduzida margem de segurança da rede de transmissão.

À medida que a geração eólica e solar avança, a transmissão deixa de ser um elemento secundário e passa a ocupar posição central na segurança energética do país. Diante desse cenário, investimentos da ordem de R$ 1 bilhão em quatro anos parecem modestos frente à complexidade do desafio. O problema central não está no que foi autorizado, mas na ausência de um salto mais robusto em planejamento e investimento. Sem isso, o sistema tende a seguir operando no limite, sustentado por soluções incrementais para problemas que já assumem caráter estrutural.