
Por Mauro Souza
Israel é uma potência global em tecnologia. Aquela nação tem, neste setor, o principal pilar da sua economia. A relevância numérica deste segmento é tamanha, que se faz desproporcional quando comparamos a qualquer outra nação.
Os dados consolidados são maiúsculos. O setor tecnológico de Israel responde por 20% do PIB, 50% das exportações, 12% da força de trabalho, recebe 5% do PIB para P&D (a maior taxa entre os países da OCDE) e deverá gerar, em 2026, 30% das receitas advindas de impostos de renda sobre pessoas físicas.
O país possui um ecossistema de inovação ímpar, contando com a maior concentração mundial de startups por habitante (uma para cada 1.800 habitantes, contra 33.000 no Brasil), se posicionando entre os top 5 em número de empresas unicórnio (avaliação acima de US$ 1 bilhão), dispondo de um mercado de Venture Capital robusto e tendo aderido, em 2025, à iniciativa Pax Silica.
A iniciativa Pax Silica merece destaque especial, num mundo pautado pela geopolítica. Ela foi lançada pelos Estados Unidos, tem em Israel um dos membros fundadores, e sinaliza uma mudança profunda na organização da economia global. Sob o argumento das cadeias de semicondutores e da inteligência artificial consolida-se, a partir desta iniciativa, um novo modelo de blocos tecnológicos, nos quais a segurança nacional, a política industrial e a liderança tecnológica passam a caminhar juntas.
A Pax Silica, por decorrência, explicita uma nova realidade: o núcleo da economia global está se reorganizando em torno de semicondutores avançados, da computação de alto desempenho e da IA.
Para os próximos anos, conforme preconizado pelo IVC Research Center, a dinâmica principal de investimentos de tecnologia de Israel estará centrada em Deep Tech (tecnologias disruptivas, destinadas a resolver problemas complexos e de grande escala, nos setores de saúde, energia e meio ambiente, com pesquisa intensiva e longos prazos de maturação), IA Gen e Cyber Security, além de projetos de semicondutores e Infraestrutura de IA.
Especificamente no âmbito do agro, as soluções de Israel são reconhecidas mundialmente. Elas se dividem em cinco grandes pilares: Gestão hídrica de ultra precisão, IA, cultivo em ambientes controlados, biotecnologia e robótica/automação de colheitas.
Já no que diz respeito aos minerais críticos, em especial as terras raras, Israel tem se destacado no desenvolvimento de tecnologias destinadas ao refino, separação e reciclagem dos 17 elementos estratégicos usados pela indústria da tecnologia. A atuação israelense não está ligada à extração, mas em resolver dois problemas do refino dos elementos de terras raras: Impacto ambiental e independência geopolítica (criando métodos competitivos de refino).
Por sua vez o Brasil, no que tange ao agro e ao setor de minerais, se constitui em uma potência global de primeira grandeza. O agro, com 50% das exportações do país, e os minerais, que aglutinam outros 10%, são a espinha dorsal do comércio exterior brasileiro.
O país é um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, abastece em maior ou menor escala 150 países, e se destaca com uma plêiade variada de produtos, passando pela soja, milho, carnes, café, açúcar, suco de laranja e pela exportação de alimentos industrializados.
A explosão econômica da Ásia, em especial da Índia a qual convive numa conjuntura de forte expansão econômica (6,5% aa) associada com crescimento populacional, aponta para uma revolução alimentar no curto prazo. O continente asiático comerá mais e melhor, abrindo uma janela de oportunidade única e gigantesca, para a prevalência brasileira no setor de alimentos.
No que tange aos minerais, em especial os chamados críticos (destacando-se as tão propaladas terras raras, o grafite e o nióbio), o país possui papel de destaque. O Brasil tem uma posição estratégica, detendo a maior reserva de nióbio do mundo (94% das reservas globais), a 2ª maior de terras raras (cerca de 23% do total já mapeado) e a 2ª maior de grafite (25% das reservas conhecidas).
As terras raras, uma vez refinadas, respondem pela miniaturização das tecnologias disruptivas destinadas a motores de carros elétricos, turbinas eólicas, celulares, computadores, equipamentos de medicina e defesa (drones, radares, submarinos, mísseis e aviões de caça). A questão é que, enquanto o Brasil surge como o detentor da segunda maior reserva mundial de terras raras, a sua participação no refino é insipiente (cabendo à China o controle de 90% da oferta mundial dos elementos refinados). Um parceiro com elevada capacidade de inovação, com proeminência em alta tecnologia, segurança e defesa, poderia encurtar o caminho para o surgimento de um player global, capaz de disputar espaço num mercado promissor e estratégico para os desígnios do comércio internacional.
Israel é a “nação high tech, das startups e da inovação” e o Brasil se constitui no “celeiro do mundo” e num “ator da maior grandeza no segmento de minerais estratégicos”. Da união destes dois países complementares, adviria um bloco capaz de exercer uma influência geopolítica relevante, em patamares que suplantam a nossa imaginação.
A não participação do Brasil, na iniciativa Paz Silica, pode representar uma marginalização estrutural, reduzindo ainda mais a sua capacidade de influência futura. Países não incluídos nesse círculo inicial tendem a ocupar posições periféricas, restritas ao fornecimento de matérias-primas ou a mercados consumidores, salvo se adotarem estratégias claras de inserção qualificada. O Brasil é uma potência de primeira grandeza em recursos minerais estratégicos e energia limpa, mas poderá seguir distante das etapas decisivas, mais especificamente o refino avançado, a manufatura de semicondutores, a infraestrutura digital e as aplicações industriais de IA, que terão impacto inegável no ganho de produtividade e nos desígnios do comércio global.
Por decorrência, no campo dos minerais críticos, da indústria de semicondutores e do avanço da IA, o Brasil possui os recursos naturais necessários à consecução das tecnologias estratégicas, enquanto Israel dispõe da qualificação tecnológica e da participação junto à elite global decisória, tornando aquela nação capaz de refinar, criar e transformar. Juntos, Brasil e Israel são complementares e imbatíveis.
A economia de Israel depende da efetividade e da comercialização internacional da sua tecnologia. A economia brasileira precisará, cada vez mais, da competitividade e da inserção global dos produtos advindos do agro, e da capacidade de refinar e de exportar soluções com valor agregado, junto ao setor mineral.
A cultura e a capacidade de inovação de Israel estão longe de serem alcançadas pelo Brasil. Por outro lado, a escala monumental do agro e do segmento de minerais críticos do Brasil, jamais será obtida por Israel. Potencializar os esforços conjuntos entre estas nações ensejará em uma aliança robusta e de forte alcance geopolítico. A tese desta união pode se constituir em um sonho... que seja, mas Shimon Peres, do alto do seu brilhantismo, costumava dizer "Olhem para o futuro. Não usem o cérebro para recordar. Usem-no para imaginar". Vamos em frente, pois todos nós temos um compromisso para com as gerações futuras.
Mauro Souza é engenheiro eletricista com pós-graduação em robótica e mestrado em telecomunicações.
Atuou como gestor do SERPRO (Serviço Federal de Processamento de Dados), diretor de tecnologia no STJ (Superior Tribunal de Justiça) e no STF (Supremo Tribunal Federal) e diretor de tecnologia na Presidência da República.
Foi presidente do Conselho de Modernização dos Correios, e diretor executivo de empresas nacionais e multinacionais. No momento é sócio fundador e CEO da Quantum Tecnologia, sócio e CEO da BX Analytics, CEO da JX Tecnologia e IA e diretor da Regional Brasília da FUNCEX (Fundação de Comércio Exterior e Relações Internacionais).
Autor do livro “Política de Tecnologia da Informação no Brasil: um Caminho para o Século XXI”, foi professor de pós-graduação da Universidade Católica de Brasília e eleito IT Leader pelo International Data Group.
Foi membro do Comitê Executivo do Governo Eletrônico (destinado a instituir a política de tecnologia da informação do Governo Brasileiro) e membro do Comitê Executivo para a Política de Segurança das Informações do Governo Federal.