
Por Vanessa Fernandes Tobias, Advogada especialista em Planejamento Sucessório e Family office*
A chamada "guerra das heranças", hoje amplamente exibida em vídeos, postagens e disputas públicas nas redes sociais, não surge no ambiente digital, ela apenas se torna visível ali. O que o público presencia é o resultado de anos de silêncio, decisões adiadas e da ilusão de que patrimônio, status ou tradição familiar seriam suficientes para garantir harmonia entre os herdeiros. A exposição é recente, mas o conflito é antigo. Sua recorrência expõe uma falha estrutural em famílias que acumulam bens, empresas e história, mas ainda se recusam a enfrentar a sucessão enquanto há tempo e lucidez.
Durante muito tempo, falar sobre herança foi tratado como tabu, quase uma afronta à ideia de união familiar. Esse adiamento deliberado produziu um efeito perverso. Quando não há regras claras, combinados transparentes e governança mínima, o falecimento de um patriarca ou matriarca não encerra um ciclo e inaugura uma disputa. O que se herda, nesses casos, não é apenas patrimônio, e sim ressentimento, versões conflitantes e disputas de poder. A diferença do presente é que essas disputas deixaram de se restringir a reuniões familiares tensas ou aos autos de um processo. Elas agora ganham audiência, engajamento e julgamento público.
A percepção de que esses conflitos se tornaram mais frequentes não é apenas intuitiva. No Reino Unido, estatísticas oficiais do Ministério da Justiça mostram que as ações judiciais de contestação de testamentos mais que dobraram nas últimas duas décadas. Em 2004, eram registradas menos de dez ações formais desse tipo por ano. Em 2023 e 2024, esse número ultrapassou duzentos casos anuais. No mesmo período, os pedidos administrativos para bloqueio da validação de testamentos, conhecidos como caveats, superaram onze mil registros em um único ano, segundo dados do Probate Service. Os números indicam que conflitos antes resolvidos no âmbito familiar estão sendo progressivamente transferidos ao Judiciário.
Nos Estados Unidos, os dados ajudam a compreender a raiz estrutural do problema. Levantamentos nacionais conduzidos pelo instituto Caring.com indicam que cerca de metade dos adultos com mais de 55 anos não possui testamento ou qualquer estrutura formal de planejamento sucessório. Esse dado ganha peso diante do contexto econômico atual. Estudos da consultoria Cerulli Associates estimam que o país atravessa a maior transferência de riqueza intergeneracional de sua história, com aproximadamente 84 trilhões de dólares sendo transferidos entre gerações até 2045. A combinação entre grandes volumes patrimoniais e ausência de planejamento cria um ambiente fértil para disputas prolongadas, decisões emocionais e conflitos que extrapolam o âmbito privado, padrão que começa a se repetir em outras economias.
Casos emblemáticos ajudam a ilustrar como a ausência de definições claras pode gerar conflitos públicos e duradouros. Um exemplo é a disputa da família Safra, uma das mais conhecidas do sistema financeiro brasileiro, que se tornou referência sobre como questões sucessórias mal resolvidas podem resultar em batalhas judiciais prolongadas, ampla exposição na imprensa e desgaste reputacional. Essa situação evidencia que, mesmo em famílias com grande patrimônio ou estruturas sofisticadas, a falta de planejamento sucessório claro e aceito por todos deixa espaço para conflitos que se estendem muito além do âmbito privado.
No Brasil, esse cenário encontra terreno ainda mais sensível. Segundo dados do Colégio Notarial do Brasil, mais de 140 mil inventários e partilhas foram realizados por meio da plataforma oficial e-Notariado apenas no primeiro semestre de 2025, o que revela que milhares de famílias só buscam soluções quando o conflito já é iminente. Paralelamente, o relatório Justiça em Números 2025, divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça, aponta que ações patrimoniais e familiares permanecem entre as mais demoradas do Judiciário, com inventários litigiosos consumindo tempo, recursos e relações. A sucessão continua sendo tratada de forma reativa, nunca preventiva.
O conflito não nasce do planejamento, e sim da ausência dele. Não estabelecer regras significa empurrar decisões para o momento de maior fragilidade emocional, agora agravado por maior impacto tributário e pela exposição pública permanente. Em um ambiente digital que transforma dramas privados em narrativas simplificadas, versões emocionais se sobrepõem aos fatos, alianças se rompem definitivamente e reputações construídas ao longo de décadas podem ser destruídas em poucos dias.
Insistir em adiar o planejamento sucessório deixou de ser uma escolha neutra. Em sociedades marcadas pela visibilidade constante, não planejar equivale a assumir conscientemente o risco da judicialização, da perda patrimonial e do desgaste público irreversível. Planejar a sucessão não significa antecipar disputas, e sim reconhecer que famílias, assim como empresas e instituições, precisam de regras para atravessar transições sem se desintegrar. O custo de ignorar essa realidade já não é apenas jurídico ou financeiro. É social, moral e, muitas vezes, definitivo.
*Vanessa Fernandes Tobias é advogada especialista em Planejamento Sucessório e com atuação voltada à organização patrimonial, governança familiar e estruturação de sucessões para famílias empresárias.